O senhor chegou ao Brasil, em 1977, como missionário evangélico. Hoje, é ateu. O que o fez abandonar a fé ?
Eu era ateu até os 17 anos. Vim de uma família da Califórnia. Meu pai era alcoólatra, minha mãe morreu aos 29 anos e minha madrasta se matou. Eu tinha uma banda de rock e usava drogas. Nesse tempo comecei a namorar uma menina de uma família de missionários. Aos 18 anos, casei-me com ela e me converti. Passei a acreditar em tudo o que está na Biblía. A Biblía afirma que quem não acredita em Deus vai para o inferno. Como eu não queria que as pessoas fossem condenadas ao fogo eterno, virei missionário. Passei por treinamento nas florestas do México e me formei em linguística. Depois, fui escalado pela igreja para trabalhar na Amazônia, com os piraãs. O governo brasileiro dificultava a entrava de americanos na floresta, e as solução que achei para superar esse obstáculos foi matricular-me no mestrado na Unicamp, em Campinas. Por cinco anos tentei pregar a Bíblia na selva. Dois fatores me fizeram desistir da catequização e da fé. Primeiro, o contato intenso com o mundo acadêmico, que é assimétrico ao dos missionários. Segundo , a relação com os índios. Quando trabalhava com afinco na tradução da Biblia para o piraã, comecei a ter dúvidas sobre o significado daquilo tudo. Os índios me perguntavam coisas como "Você?". Quando eu disse que não o conhecia pessoalmente, eles chegaram à conclusão óbvia: "Você nunca viu esse Jesus e fala sobre ele". Bastou aquilo para entender que havia algo de estranho no fato de aquele tribo primitiva ser muito mais exigente do que eu, uma mente do Primeiro Mundo, com a exibição de evidências científicas para embasar afirmações.
Isso mudou sua vida ?
Um dia, um piranhã me disse: "Nós gostamos de você, mas sua mensagem nada significa para nós". Eu passei a me questionar cada vez mais intensamente se não estava tentando impor a eles uma maneira diferente de ver o mundo sem sequer poder lhes dar uma explicação lógica para isso. Em paralelo, comecei a perceber aqueles ensinamentos não faziam mais sentido para mim mesmo. Em 1984, quando fui trabalhar no MIT, eu já me transformara em um ateu. Nesse tempo, meus serviços como missionário se tornaram uma fachada para o que realmente me interessava, que eram os estudos de linguística. Anos mais tarde, na Inglaterra, onde fui professor da Universidade de Manchester, revelei finalmente à minha esposa que havia perdido a fé. Eu disse a ela que , para mim, Jesus, se existiu mesmo, foi apenas uma pessoa boa, mas não o filho de Deus. Eu me senti livre, dono daquela liberdade de alguém que consegue superar suas crenças e se sente, então, honesto consigo mesmo.
Materia da revista Veja edição 2259 - 7 de março de 2012
Até Mais
Sr N.
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