Materia massa demais.... pq envolve estudo antropológico... machos e bichas .... e muito engraçado as vezes parecer um artigo cientifico u.u
Um homem heterossexual pode sentir prazer sendo penetrado por outro homem?
Um homem que sente prazer sendo penetrado por outro homem pode ser chamado de
heterossexual?
Antes de discutir essas questões, quero indicar alguns textos:
Porque a heterossexualidade não
é natural;
O ânus é um órgão sexual,
de Leandro Colling e
Aqui ninguém é hetero;
Um homem heterossexual pode sentir
desejo por outro homem, esses últimos de minha autoria.
É importante lembrar que, no Brasil, segundo os estudos antropológicos, até
a década de 80, os homens se dividiam em:
machos e
bichas,
sendo o macho o que penetrava outros homens e as bichas os sujeitos que eram
penetrados.
O homem que penetrava não perdia o status de macho, inclusive em algumas
situações tal fato era uma prova de sua virilidade. A partir dos anos 80, com a
popularização dos discursos científicos oriundos da Europa, uma nova concepção
de sexualidade ganha amplitude no Brasil, em que os sujeitos não são mais
divididos em
machos e
bichas, mas em heterossexuais e
homossexuais, sendo que os heterossexuais são os que desejam e mantém práticas
sexuais com o sexo oposto, enquanto os homossexuais com o mesmo sexo. Uma
concepção não substitui a outra e, embora a segunda passe a ter mais força, as
duas continuam operando no Brasil.
É comum ouvir casos de homens considerados heterossexuais que penetram
outros homens, isto é, de alguma forma, nossa cultura mantém uma certa
permissividade ao homem considerado heterossexual penetrar um outro homem,
desde que não tenha ocorrido algum envolvimento emocional e afetivo e os atos
não tenham sido sistemáticos (constantes).
Esse tipo de homem, heterossexual, masculinizado, foi e é considerado o
ápice do desejo de muitos homossexuais, símbolo de uma masculinidade verdadeira
e autêntica. Não obstante era preciso que, além de masculinizado, esse homem
fosse ativo, isto é, um “comedor”, mas eis que agora começa a surgir uma
categoria de sujeitos que se dizem heterossexuais passivos.
Quem é esse homem hétero-passivo? São homens que se identificam com a
heterossexualidade (evidente), mantém relações afetivossexuais com mulheres
(essas relações podem ser através de vínculos matrimoniais ou casuais, com ou
sem vínculo afetivo), rejeitam qualquer traço de feminilidade em si ou nos parceiros,
sentem prazer penetrando mulheres, mas nas relações com homens querem ser
penetrados.
Os heterossexuais passivos não penetram homens, são sempre penetrados. Os
que mantém relações sexuais penetrando e sendo penetrados por outros homens se
denominam de heterossexuais versáteis, que é uma categoria bem mais comum.
Não sou tão ingênuo de acreditar que em outros momentos da história esses
homens não existissem, mas, hoje, com a popularização da internet, utilizada
como mecanismos de busca por parceiros, esses sujeitos parecem aumentar e
formular/textualizar uma identidade: a de hétero-passivo.
Onde se encontram tais sujeitos? Minha aposta é que em muitos espaços de
sociabilidade, principalmente em bairros populares (mas duvido muito que seja
apenas nestes), ocorrem interações que não podem ser explicadas pela dualidade
heterossexual versus homossexual ou ativo versus passivo.
Foi nos sites de relacionamentos
manhunt e
disponível que
analisei muitos desses perfis em minha pesquisa de mestrado realizada no Programa
Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade. Alguns diziam que
buscavam novas experiências e que estavam dispostos a serem penetrados; outros
sinalizavam que eram experientes e que desejavam serem apenas passivos nas
relações sexuais.
Outra forma de sociabilidade entre esses homens ocorre nos chats do UOL
(tomara que o Pastor Feliciano não descubra e denuncie à Polícia!). Existem
salas específicas e uma delas é destinada a sexo entre homens heterossexuais.
Na maioria das vezes essas interações se iniciam com diálogos sobre o sexo
com mulheres, depois começam a falar de masturbação entre homens e, por fim,
sexo anal entre homens.
Encontrei também no Yahoo Respostas, um fórum que tem por objetivo trocar
informações entre usuários da internet, a seguinte dúvida de um usuário:
“Sou casado e tenho uma vida hetero prazerosa. Só que desde 5 ou 6
anos de idade dou minha b… e preciso disso.Não sei se é homossexualismo ou
vício… Só sei que é uma necessidade. Minha mulher não sabe e nem quer saber desses
meus desejos.Não sinto atração por homens, só por pênis, por isso nunca tive um
namorado, nem fui ativo com homem…Acho que sou um bissexual diferente e não sei
o que fazer”.(Post completo e com respostas).
O sujeito acima não consegue um lugar identitário para seu desejo. Sente
prazer com o sexo heterossexual, mas não consegue evitar o desejo de ser
penetrado.
Um caso explorado midiaticamente é do ex-pastor evangélico da Igreja
Universal,
Alexandre Senna, que tornou-se ator pornô
passivo, após o pedido da esposa, que não aceita que ele penetre mulheres, mas
também porque seu pênis não está no padrão da indústria pornô. As pessoas que
comentam as notícias nos sites e blogs sempre dizem que o mesmo é um
homossexual enrustido, pois não concebem um heterossexual fazendo sexo anal
passivo.
O que podemos dizer sobre esses sujeitos? O mais comum e pouco reflexivo,
mas que tem lá sua verdade, é pensarmos no modo com as representações sociais
negativas da homossexualidade podem fazer com que um grande número de sujeitos
recuse tal identidade. Acho, contudo, que isso não responde completamente a
questão.
É mais produtivo invertermos a pergunta: o que esses sujeitos dizem a nós?
Essa questão faz muita diferença pois, se tomarmos os sistemas classificatórios
para explicarmos os sujeitos, aniquilamos as diferenças, enquadrando-os em
poucas possibilidades. Ao contrário, se utilizarmos as experiências e
questionarmos os sistemas classificatórios, podemos problematizar o quanto a
divisão heterossexual, homossexual e bissexual é limitante e não dá conta de
explicar a sexualidade humana, que é complexa e atravessada por diferenças e
singularidades.
Vale ressaltar que, mesmo recusando a homossexualidade, esses sujeitos
assumem uma outra identidade problematizada, considerada anormal até por
aqueles que aceitam a homossexualidade. Constroem, também, uma identidade
considerada desviante.
É bem certo que a heterossexualidade confere um status de privilégio, no
entanto, a passividade marca negativamente o homem. Poderíamos pensar numa
tentativa de limpar a passividade de um status negativo e histórico? Talvez a
masculinidade se transforme em um padrão cultural tão fortemente exigida que
mesmo na passividade seja preciso estar dentro de tais padrões.
Podemos dizer que essa identidade hétero-passivo é uma invenção? Sim, toda
identidade o é! A divisão hétero versus homo, ampliando para bissexualidade, é
também uma invenção da ciência oitocentista, uma ficção. Uma criação que,
apoiada no positivismo, acredita que poucas palavras conseguem dar conta da
paisagem sexual. Uma limitação e higienização da nossa singularidade.
Nós estamos, no entanto, tão impregnados dessa construção binária que, se um
homem se envolve com outro, nós questionamos o sujeito e nunca a divisão
binária. Por que não questionamos essa ideia de que os heterossexuais não
sentem prazer anal? Será que é possível mesmo que exista um grupo tão
hegemônico em termos quantitativos que ignore determinada área do corpo?
Não estou desconsiderando (digo mais uma vez) o modo como o preconceito
dificulta uma assunção à homossexualidade, mas considerando que, além de se
proibir uma identidade, se interdita também o corpo, isto é, há uma castração
anal, um interdito sobre o ânus. Os heterossexuais têm o ânus castrado, diz
Beatriz Preciado.
Bem, enquanto a gente fica tentando responder essas questões, e por mais que
alguns queiram simplificar tudo, achando que o mundo se divide em duas ou três
possibilidades, os sujeitos vão vivendo suas fantasias, cada um com uma
história singular, que problematiza nossas concepções e classificações.
Por essas e outras, hétero-passivo é tendência e está na moda!
Ate MAis
Sr N.
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